5 de março de 2013

Maldição N.º03


MALDIÇÃO N.°03


 

            Convidei-a para comer uma pasta num pequeno restaurante e trattoria a beira das águas aqui em Veneza. Pedi especialmente para nós uma macarronada, como em a Dama e o Vagabundo, acompanhado de um saboroso vinho italiano. A noite estava perfeita... Até a hora que eu levei um tiro. Naquele momento eu não acreditei como eu sangrava e morria tão simplesmente. Um tiro levava a minha vida embora e... Oh! Um tiro da mulher que eu amo!
            Eu não entendo bem o que está acontecendo, nem o porquê dela ter tentado me matar. Sei apenas que agora estou eu boiando nas águas de Veneza, vendo as ondas dos barcos se formando sobre mim, não sinto frio, nem calor... Meu corpo está dormente, não consigo me mexer. Há um barco por perto, alguém me encontrou... Era um homem alto de preto com uma cicatriz no rosto. Ele fez alguma coisa...
            Algumas horas depois, sozinho, eu consegui me levantar do barco em que me deixaram. Minhas juntas estavam rijas e eu tinha dificuldade em me locomover. Olhei para minhas mãos, a pele permanecia escura e sem vida, meu tato não voltara completamente e meu cheiro estava pútrido e nojento. Saí andando pelo caminho próximo de onde o barco estava atracado, mesmo com dificuldade. Meu peito doía, levantei a blusa e vi o buraco fino daquele maldito tiro de onde escorria um líquido negro e mal cheiroso.
            Escorei-me numa estátua, tentei pensar em qualquer coisa, em qualquer um. Somente ela me vinha nos pensamentos... Eu ainda a amo! Eu preciso ir vê-la! Andei um pouco e avistei a estação de trem do outro lado. Estava numa praça cheia de árvores, encostei-me em uma delas e adormeci. Ao raiar do novo dia, acordei sentindo algo estranho no ar. Não havia sons vindos da estação, ou das conversas das pessoas ou dos barcos navegando. Diversas nuvens de fumaça se erguiam da minha bela cidade. O que terá acontecido? Caminhei por onde pude até chegar ao extremo da praça e fiquei observando o canal. Tinha dúvidas em minha mente, tentei me lembrar o que eu havia feito de errado, se em algum momento havia decepcionado minha amada. Eu... Eu tenho certeza de que fiz tudo certo. Estávamos namorando a cerca de dois meses, eu a encontrei próximo do hotel em que estava hospedada. Seus cabelos estavam soltos e sedosos, usava um vestido comum em tons de vermelho e seu corpo era uma escultura iluminista que se aproximava da perfeição. Não... Era ‘A’ perfeição! Ao menos para mim, que fiquei extasiado com aquela visão simples e esplêndida a poucos metros de mim, e que se dirigira ao meu encontro. Eu não esperava por aquilo, fiquei completamente sem reação:
            – Olá? – ela me perguntou.
            – O... Olá! – respondi com falta de jeito.
            – Poderia me dizer como eu consigo uma balsa para conhecer Veneza? Adoraria encontrar alguém que me levasse por aí...
            – Eu posso ajudá-la...
            – Pode? – havia demorado em responder.
            – Por um acaso eu sou gondoleiro nas horas vagas... – era uma grande mentira.
            – Que ótimo! Quanto você vai me cobrar? Planejo passar longos dias visitando as belíssimas trattorias de vinhos que encontrar.
            – Se a moça me permitir. Posso te levar em alguns lugares que não lhe cobrarei absolutamente nada por isso. Ter uma grande família ajuda nessas horas e só preciso que fale bem deles para os seus amigos...
            – Que maravilha! E por onde começamos?
            – Eh... Agora?
            – Sim, o quanto antes. Estou ansiosa para conhecer Veneza e suspirar por entre as suas passagens tão românticas.
            – Espere só um momento que vou pegar uma gôndola.
            – Claro. Estarei esperando.
            “E agora?” pensei comigo mesmo, “Tenho de me encontrar com a minha namorada!” Possivelmente tenha sido isso. Eu não queria destratar a moça que pedi em namoro a mais de um ano e liguei para ela. Acabei discutindo com ela e terminei o namoro sem mais nem menos. Eu tomei cuidado para não estar em dois namoros ao mesmo tempo e tive de terminar daquela maneira brusca. Ainda assim, não entendo porque ela atirou em mim. E as outras pessoas que nos viram ali? O chefe de cozinha? Os garçons? Eles são da minha família! O que está acontecendo?
Uma balsa veio boiando pelo canal até onde eu estava, como que adivinhando o meu desejo. Meio sem jeito, consegui subir, não se sem antes me molhar novamente. Tentei remar com as mãos, mas a corrente se encarregou de me levar pelo canal até a fração comunal em que eu e a minha família residimos, a Dorsoduro.
Lembro-me daquela viagem que tive com ela, Úrsula era seu nome. Peguei emprestada a gôndola com meu irmão. Na verdade, peguei sem que ele soubesse. Quando lhe contasse sobre a moça de certo que relevaria a situação. Ou teria sido isso? Não, estou pensando besteiras... Aquele dia foi maravilhoso, cada gesto dela parecia infinitamente perfeito, o sorriso, o balançar de cabelo, a maneira como tocou a minha mão quando uma farpa de madeira entrou no meu dedo. Segurei-a pelo queixo e lhe dei um beijo. Nosso primeiro beijo! Era como se milhões de fogos de artifícios tivessem explodido ao mesmo tempo sobre os canais de toda a Veneza!
Continuava lentamente pelo canal, logo a balsa encontraria sozinha a margem que eu procurava para voltar para casa. Se minha amada não estivesse comigo, ao menos poderia ver o rosto de minha família ao me rever vivo, novamente...
            Devo ter demorado uma hora, mas finalmente consegui alcançar a entrada e por pouco não a perdi. Minha respiração estava estranha, queria vomitar algo que se agitava no meu estômago e ele nada de sair. Continuei arfando mesmo, da mesma forma que permaneci ao lado de Úrsula quando ficou terrivelmente gripada depois de cair nas águas da minha cidade. Ela ficara febril durante dias e eu permaneci ali, ao seu lado. O médico receitara antibióticos fortes e descanso contínuo. Eu poderia ter saído, tomado um ar, ido a praça em que estava a pouco, a Giardini Papadopoli na fração Santa Croce ou ir para o lado norte de Veneza, no extremo de Connaregio, onde costumo me divertir com meus amigos. Não... Eu fiquei ali, ao lado dela, garantindo que pudesse ir ao banheiro, tomar um pouco de água ou comer um pouco. Talvez tenha sido a aquela queda que fez isso com ela... Não sei.
            Cheguei em casa, estou diante da porta. Ninguém por perto, nenhuma alma viva reclamando do vizinho barulhento, nenhuma risada aberta, nem o adorável cheiro de comida sendo preparada. Nada. Está muito silencioso, silencioso demais! Entro. Ninguém em casa. Suba as escadas, meu estômago continua me incomodando. A coisa quer sair e não sai! Na parte debaixo, alguém entra. Fico aliviado e torno a descer. A pessoa estava com pressa e foi direto para a cozinha, além da escada. Ela parece pegar algo na mesa, confere e guarda na bolsa. Ela vai em direção a porta e me encontra:
            – U... Úrsula? – minha voz estava embargada e quase não pronuncio seu belo nome direito.
            – Remi? Você está, você está... – seu rosto se contorceu numa expressão de medo e pânico.
            – E... E... Eu... – estava difícil falar com a dor no estômago. – Te amo...
            Ela parou um instante, continuava demonstrando que estava horrorizada, porém, queria ouvir o que tinha a dizer.
            – Por... Por quê? Aaaaah! – gritei de dor, caindo de joelhos.
            – ... – ela permaneceu indiferente.
            Abraçando minha barriga, tentei continuar:
            – Me diga... Por quê?
            Ela tirou a mesma arma que usou para atirar em mim da bolsa e a apontou na minha direção:
            – ME DIGA! – implorei.
            – Quer mesmo saber, morto-vivo? Eu fui muito bem paga! Hahahah... – ela ria da minha cara. – E agora seu corpo podre infectou toda a Veneza, disseminando uma doença contagiosa que se alastrou e matou todo mundo. O governo tratou de cuidar dos corpos e agora a sua bela cidade não passa de um sítio de quarentena. E, já que está aqui, depois de um mês no fundo dos canais, posso te destruir de uma vez por todas seu infeliz desgraçado!
            – ...?!
            E atirou, acertando meu olho direito, jogando pedaços do meu cérebro por todos os lados. Com um baque no chão, meu corpo se encolhia por causa do frio como uma aranha morta. Ela passa por cima do meu corpo e me chuta nas bolas. Porém, antes que pudesse continuar, segurei sua perna:
            – POR QUÊ?! – gritei cuspindo uma gosma negra em seu rosto.
            – Me largue coisa nojenta! Solte-me! – ela tentou atirar de novo, mas acabou caindo e perdendo a arma.
            – EU... TE... AMO... – a coisa no meu estômago finalmente saiu pela minha boca. Uma solitária enorme com dentes de enguia pulou na sua perna feito uma cobra, logo acima de onde eu estava segurando.
            Ela se debatia com força e, aos poucos, foi parando, com seu sangue sendo completamente drenado. Levantei-me, a solitária a largou, voltando para o meu estômago e pus minha morta amada nos braços. Esfreguei o meu rosto no dela e a minha pele macia se desmanchou sobre a dela. Seu corpo se mantinha quente e aliviava um pouco as minhas dores. Encarei seus olhos azuis e olhei sua boca maravilhosa. Dei-lhe um beijo de despedida e me senti diferente. Estava com fome, com muita fome. A solitária se agitava na minha barriga com movimentos rápidos. Eu olhei novamente para ela e não via mais a mulher que amava. Seus lábios pareciam tão... apetitosos! Arranquei-os numa única mordida. A fome não passava... Devorei seu nariz, sua bochecha, suas orelhas... Não fazia diferença o que eu engolia, eu queria mais, mais! Passei para o resto do corpo, arrancando seu vestido, o mesmo que eu havia lhe dado com tanto amor e carinho. Meti os dedos no seu seio volumoso e com violência arranquei o pedaço de carne, metendo-o inteiro na boca. Não engasguei, pelo contrário, ele deslizava melhor. Mesmo assim, prevalecia a fome, e não mais tomava cuidado, metia os dentes, os meus vários dentes, os meus novos vários dentes! Foi um banquete e tanto!
            Terminado com toda a carne saborosa daquela puta, lambi os beiços. Atrás de mim a porta se abre e vejo o mesmo homem alto, de vestes pretas com uma cicatriz no rosto:
            – Você vem comigo...
            A qual retribuí com satisfação:
            – Me alimente...
...

Um comentário:

  1. Ok, esse aqui foi bem show até. Só a parte final com o que a Úrsula falou pro cara que ficou um tanto expositivo. Ademais, boa escrita!

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