MALDIÇÃO N.°03
Convidei-a
para comer uma pasta num pequeno restaurante e trattoria a beira das águas aqui
em Veneza. Pedi especialmente para nós uma macarronada, como em a Dama e o
Vagabundo, acompanhado de um saboroso vinho italiano. A noite estava perfeita...
Até a hora que eu levei um tiro. Naquele momento eu não acreditei como eu
sangrava e morria tão simplesmente. Um tiro levava a minha vida embora e... Oh!
Um tiro da mulher que eu amo!
Eu não
entendo bem o que está acontecendo, nem o porquê dela ter tentado me matar. Sei
apenas que agora estou eu boiando nas águas de Veneza, vendo as ondas dos
barcos se formando sobre mim, não sinto frio, nem calor... Meu corpo está dormente,
não consigo me mexer. Há um barco por perto, alguém me encontrou... Era um
homem alto de preto com uma cicatriz no rosto. Ele fez alguma coisa...
Algumas
horas depois, sozinho, eu consegui me levantar do barco em que me deixaram.
Minhas juntas estavam rijas e eu tinha dificuldade em me locomover. Olhei para
minhas mãos, a pele permanecia escura e sem vida, meu tato não voltara
completamente e meu cheiro estava pútrido e nojento. Saí andando pelo caminho
próximo de onde o barco estava atracado, mesmo com dificuldade. Meu peito doía,
levantei a blusa e vi o buraco fino daquele maldito tiro de onde escorria um
líquido negro e mal cheiroso.
Escorei-me
numa estátua, tentei pensar em qualquer coisa, em qualquer um. Somente ela me
vinha nos pensamentos... Eu ainda a amo! Eu preciso ir vê-la! Andei um pouco e avistei
a estação de trem do outro lado. Estava numa praça cheia de árvores, encostei-me
em uma delas e adormeci. Ao raiar do novo dia, acordei sentindo algo estranho
no ar. Não havia sons vindos da estação, ou das conversas das pessoas ou dos
barcos navegando. Diversas nuvens de fumaça se erguiam da minha bela cidade. O
que terá acontecido? Caminhei por onde pude até chegar ao extremo da praça e
fiquei observando o canal. Tinha dúvidas em minha mente, tentei me lembrar o
que eu havia feito de errado, se em algum momento havia decepcionado minha
amada. Eu... Eu tenho certeza de que fiz tudo certo. Estávamos namorando a
cerca de dois meses, eu a encontrei próximo do hotel em que estava hospedada.
Seus cabelos estavam soltos e sedosos, usava um vestido comum em tons de
vermelho e seu corpo era uma escultura iluminista que se aproximava da
perfeição. Não... Era ‘A’ perfeição! Ao menos para mim, que fiquei extasiado
com aquela visão simples e esplêndida a poucos metros de mim, e que se dirigira
ao meu encontro. Eu não esperava por aquilo, fiquei completamente sem reação:
– Olá? –
ela me perguntou.
– O... Olá!
– respondi com falta de jeito.
– Poderia
me dizer como eu consigo uma balsa para conhecer Veneza? Adoraria encontrar
alguém que me levasse por aí...
– Eu posso
ajudá-la...
– Pode? –
havia demorado em responder.
– Por um
acaso eu sou gondoleiro nas horas vagas... – era uma grande mentira.
– Que
ótimo! Quanto você vai me cobrar? Planejo passar longos dias visitando as
belíssimas trattorias de vinhos que encontrar.
– Se a moça
me permitir. Posso te levar em alguns lugares que não lhe cobrarei
absolutamente nada por isso. Ter uma grande família ajuda nessas horas e só
preciso que fale bem deles para os seus amigos...
– Que
maravilha! E por onde começamos?
– Eh...
Agora?
– Sim, o
quanto antes. Estou ansiosa para conhecer Veneza e suspirar por entre as suas
passagens tão românticas.
– Espere só
um momento que vou pegar uma gôndola.
– Claro.
Estarei esperando.
“E agora?”
pensei comigo mesmo, “Tenho de me encontrar com a minha namorada!” Possivelmente
tenha sido isso. Eu não queria destratar a moça que pedi em namoro a mais de um
ano e liguei para ela. Acabei discutindo com ela e terminei o namoro sem mais
nem menos. Eu tomei cuidado para não estar em dois namoros ao mesmo tempo e
tive de terminar daquela maneira brusca. Ainda assim, não entendo porque ela
atirou em mim. E as outras pessoas que nos viram ali? O chefe de cozinha? Os
garçons? Eles são da minha família! O que está acontecendo?
Uma balsa veio boiando pelo canal
até onde eu estava, como que adivinhando o meu desejo. Meio sem jeito, consegui
subir, não se sem antes me molhar novamente. Tentei remar com as mãos, mas a
corrente se encarregou de me levar pelo canal até a fração comunal em que eu e
a minha família residimos, a Dorsoduro.
Lembro-me daquela viagem que tive
com ela, Úrsula era seu nome. Peguei emprestada a gôndola com meu irmão. Na
verdade, peguei sem que ele soubesse. Quando lhe contasse sobre a moça de certo
que relevaria a situação. Ou teria sido isso? Não, estou pensando besteiras...
Aquele dia foi maravilhoso, cada gesto dela parecia infinitamente perfeito, o
sorriso, o balançar de cabelo, a maneira como tocou a minha mão quando uma
farpa de madeira entrou no meu dedo. Segurei-a pelo queixo e lhe dei um beijo.
Nosso primeiro beijo! Era como se milhões de fogos de artifícios tivessem
explodido ao mesmo tempo sobre os canais de toda a Veneza!
Continuava lentamente pelo canal,
logo a balsa encontraria sozinha a margem que eu procurava para voltar para
casa. Se minha amada não estivesse comigo, ao menos poderia ver o rosto de
minha família ao me rever vivo, novamente...
Devo ter
demorado uma hora, mas finalmente consegui alcançar a entrada e por pouco não a
perdi. Minha respiração estava estranha, queria vomitar algo que se agitava no
meu estômago e ele nada de sair. Continuei arfando mesmo, da mesma forma que
permaneci ao lado de Úrsula quando ficou terrivelmente gripada depois de cair
nas águas da minha cidade. Ela ficara febril durante dias e eu permaneci ali,
ao seu lado. O médico receitara antibióticos fortes e descanso contínuo. Eu
poderia ter saído, tomado um ar, ido a praça em que estava a pouco, a Giardini
Papadopoli na fração Santa Croce ou ir para o lado norte de Veneza, no extremo
de Connaregio, onde costumo me divertir com meus amigos. Não... Eu fiquei ali,
ao lado dela, garantindo que pudesse ir ao banheiro, tomar um pouco de água ou
comer um pouco. Talvez tenha sido a aquela queda que fez isso com ela... Não
sei.
Cheguei em
casa, estou diante da porta. Ninguém por perto, nenhuma alma viva reclamando do
vizinho barulhento, nenhuma risada aberta, nem o adorável cheiro de comida
sendo preparada. Nada. Está muito silencioso, silencioso demais! Entro. Ninguém
em casa. Suba as escadas, meu estômago continua me incomodando. A coisa quer
sair e não sai! Na parte debaixo, alguém entra. Fico aliviado e torno a descer.
A pessoa estava com pressa e foi direto para a cozinha, além da escada. Ela
parece pegar algo na mesa, confere e guarda na bolsa. Ela vai em direção a
porta e me encontra:
– U... Úrsula?
– minha voz estava embargada e quase não pronuncio seu belo nome direito.
– Remi?
Você está, você está... – seu rosto se contorceu numa expressão de medo e
pânico.
– E... E...
Eu... – estava difícil falar com a dor no estômago. – Te amo...
Ela parou
um instante, continuava demonstrando que estava horrorizada, porém, queria
ouvir o que tinha a dizer.
– Por...
Por quê? Aaaaah! – gritei de dor, caindo de joelhos.
– ... – ela
permaneceu indiferente.
Abraçando minha
barriga, tentei continuar:
– Me
diga... Por quê?
Ela tirou a
mesma arma que usou para atirar em mim da bolsa e a apontou na minha direção:
– ME DIGA!
– implorei.
– Quer
mesmo saber, morto-vivo? Eu fui muito bem paga! Hahahah... – ela ria da minha
cara. – E agora seu corpo podre infectou toda a Veneza, disseminando uma doença
contagiosa que se alastrou e matou todo mundo. O governo tratou de cuidar dos
corpos e agora a sua bela cidade não passa de um sítio de quarentena. E, já que
está aqui, depois de um mês no fundo dos canais, posso te destruir de uma vez
por todas seu infeliz desgraçado!
– ...?!
E atirou,
acertando meu olho direito, jogando pedaços do meu cérebro por todos os lados. Com
um baque no chão, meu corpo se encolhia por causa do frio como uma aranha morta.
Ela passa por cima do meu corpo e me chuta nas bolas. Porém, antes que pudesse
continuar, segurei sua perna:
– POR QUÊ?!
– gritei cuspindo uma gosma negra em seu rosto.
– Me largue
coisa nojenta! Solte-me! – ela tentou atirar de novo, mas acabou caindo e
perdendo a arma.
– EU...
TE... AMO... – a coisa no meu estômago finalmente saiu pela minha boca. Uma
solitária enorme com dentes de enguia pulou na sua perna feito uma cobra, logo
acima de onde eu estava segurando.
Ela se
debatia com força e, aos poucos, foi parando, com seu sangue sendo
completamente drenado. Levantei-me, a solitária a largou, voltando para o meu
estômago e pus minha morta amada nos braços. Esfreguei o meu rosto no dela e a
minha pele macia se desmanchou sobre a dela. Seu corpo se mantinha quente e
aliviava um pouco as minhas dores. Encarei seus olhos azuis e olhei sua boca
maravilhosa. Dei-lhe um beijo de despedida e me senti diferente. Estava com
fome, com muita fome. A solitária se agitava na minha barriga com movimentos
rápidos. Eu olhei novamente para ela e não via mais a mulher que amava. Seus
lábios pareciam tão... apetitosos! Arranquei-os numa única mordida. A fome não
passava... Devorei seu nariz, sua bochecha, suas orelhas... Não fazia diferença
o que eu engolia, eu queria mais, mais! Passei para o resto do corpo,
arrancando seu vestido, o mesmo que eu havia lhe dado com tanto amor e carinho.
Meti os dedos no seu seio volumoso e com violência arranquei o pedaço de carne,
metendo-o inteiro na boca. Não engasguei, pelo contrário, ele deslizava melhor.
Mesmo assim, prevalecia a fome, e não mais tomava cuidado, metia os dentes, os
meus vários dentes, os meus novos vários dentes! Foi um banquete e tanto!
Terminado
com toda a carne saborosa daquela puta, lambi os beiços. Atrás de mim a porta
se abre e vejo o mesmo homem alto, de vestes pretas com uma cicatriz no rosto:
– Você vem
comigo...
A qual
retribuí com satisfação:
– Me
alimente...
...


Ok, esse aqui foi bem show até. Só a parte final com o que a Úrsula falou pro cara que ficou um tanto expositivo. Ademais, boa escrita!
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