17 de janeiro de 2013

Maldição N.º02


MALDIÇÃO N.º02


 

            Coisas ruins têm acontecido... Moro nesta pequena casa em Londres desde que nasci e há um mês meus pais se mudaram, me deixando só, sozinho, cuidando de mim mesmo. Já sou adulto e sei me cuidar muito bem. De fato, o problema é não ter com quem conversar. E para piorar tudo, um assassino tem rondado a vizinhança entrando nas casas a noite para cometer os seus crimes...
            O primeiro assassinato aconteceu com um senhor de idade no final da rua. Ele era rabugento e sempre brigava com as crianças que passavam pela rua. Inclusive eu! Quando era pequeno, ao chutar a bola na direção errada, que foi parar justamente na calçada do velho, levei um chute do desgraçado na barriga. Fui para casa chorando e minha mãe apenas disse: “Perdoe aquele velho, ele não sabe o que faz”. Senti-me vingado quando soube da morte dele. Ouvi pelas conversas da rua que ele foi esfaqueado e ficara com o rosto todo desfigurado.
            A segunda morte ocorreu alguns dias depois, com a vizinha fofoqueira da rua. Aparentemente ela viu quando alguém estranho estava saindo da casa do primeiro morto e foi sentenciada como a próxima vítima. Ela testemunhou para a polícia que o sujeito tinha cerca de um metro e oitenta, e usava uma blusa branca que ficou manchada com o sangue. Por que ela foi dizer aquilo?! Agora ela está morta e, pelo que ouvi dizer, a língua não foi encontrada...
            Apesar disso, infeliz mesmo fora a terceira vítima: uma criança com cerca de oito anos que eu mesmo havia visto ainda com vida poucas horas antes da fatídica noite. O assassino voltou a entrar escondido na casa, entrou no quarto da criança e novamente usou uma faca para suas insanidades. O menino recebeu facadas no peito, no pescoço e, o pior de tudo, teve seus olhos arrancados. O cachorro, enquanto isso, não latiu uma única vez. Depois que os pais encontraram o filho naquele estado e as viaturas da polícia tomaram novamente conta da rua inteira, o policial questionou o porquê do cachorro não ter latido. Foram ver e o animal não saia de sua pequena casinha no canto do miúdo quintal... ele estava morto também. Não por facadas, mas por ter comido um pedaço de carne envenenado.
            A policia estava completamente estarrecida depois do terceiro assassinato. Os policiais não paravam de tocar a campainha das casas e perguntando a todos os moradores sobre qualquer coisa relacionada àquelas pessoas. Além de morarem no mesmo bairro, não foi encontrado nenhum indício do que poderia conectar os assassinatos em série. Chegaram até bater na minha porta. Naquele momento eu não estava e não pude relatar nada que fosse interessante ao caso. Porém, pude ver quando tocaram a campainha do meu vizinho e ele a abriu, meio receoso do que poderia dizer, deixando a porta entreaberta. Meu vizinho contou-lhes alguma coisa sobre a noite referente ao assassinato do menino, que vira alguém perambulando nas ruas naquele mesmo horário, vestindo uma blusa branca e que o sujeito batera em uma lata de lixo que fora encontrada do mesmo jeito, derrubada, com todo o lixo espalhado. Eles levaram a lata inteira para análise. Talvez um pouco exagerado, eu diria, pois não foi o suficiente para deter a próxima morte...
            Para minha surpresa... Preciso respirar um pouco agora, isso é meio difícil de dizer. Para a minha surpresa, o quarto assassinado foi o meu vizinho. Isso estava começando a me preocupar, se o meu vizinho foi morto porque o assassino sabia que ele havia dito algo sobre aquela lata de lixo que fora exageradamente analisada, o que poderia acontecer comigo, então? Passei várias noites em claro depois daquilo. Assisti pela janela o corpo sendo retirado de dentro de um saco, com o legista perguntando sobre a mão daquele senhor e o policial respondendo que ninguém a encontrara. Aquela mesma mão que ficara para fora da porta, com os dedos segurando aquela que deveria ser sua única proteção... E o mais interessante estaria por vir! A porta não fora tocada, não havia sinais de arrombamento nela e em nenhum outro lugar da casa. Tentaram achar alguma digital, nada! Nenhuma pista sobre o assassino.
            Três dias depois, sem dormir praticamente nada, fiquei tomando café até que o dia amanhecesse. Se eu estiver acordado, pelo menos eu posso me defender ou chamar a policia... Alguém bateu na minha porta! Pulei da minha cadeira, fazendo barulho, minhas mãos tremiam. Tentei me acalmar, respirei fundo, crente que se fosse o assassino ele não bateria na porta... ou bateria? Bateram novamente na minha porta e disseram: “É a policia, abra a porta”! Olhei pelo olho mágico e constatei o uniforme. Abri a porta, deixando o ferrolho passado:
            – Boa noite... – disse o guarda.
            – Boa noite. – respondi com certa timidez e fraqueza de corpo. O guarda me encarou, me estranhando.
            – Estamos fazendo a ronda noturna, notou alguém estranho passando pela rua?
            – Nã... não... Desculpe, ainda não vi ninguém na rua que não fosse um policial. Acredito que todos os moradores já sabem do assassino serial...
            – Obrigado pela informação... – ele pensou em se virar, mas continuou na frente da minha porta. – Posso te perguntar uma coisa?
            – Po... pode... – minha voz saiu fina, quase não saindo.
            – Porque está usando óculos escuros de noite?
            – Minhas olheiras... Faz dias que não durmo com as noticias que não param de chegar... Meus olhos não param de doer. – abaixei os óculos um pouco para mostrar ao guarda que meu estado era péssimo.
            – OK. A policia de Londres lhe promete que terá uma boa noite de sono assim que pegarmos o assassino... – o policial fez uma careta. – Que cheiro é esse?
            – Que vergonha... – olhei para trás e vi uma bagunça horrorosa. – Faz um mês que estou morando sozinho, é a primeira vez que vivo sem meus pais... Sabe como é? Sou solteiro, desempregado, sem ninguém para lavar a minha roupa ou limpar a casa... Estou tentando me virar e...
            – Tudo bem se eu entrar?
            – Cl... Claro! Só não repare na bagunça... – respirei fundo e abri a porta para o desconhecido.
            O policial acenou para o parceiro que estava no carro e entrou. Eu estava completamente envergonhado com ele vendo a imundície que a casa estava. Ele vasculhou tudo, olhou de um lado a outro e saiu.
            – Tudo certo por aqui... Já estou indo. Tente arrumar a casa de vez em quando. Novamente, obrigado...
            – De nada...
            – Cuidado, se vir alguém, é só ligar...
            – Sim...
            Assim que fechei a porta me senti aliviado. Policiais são meio estranhos, imponentes, dão medo em todo mundo. Acredito que eu não deva ser o único que dormiria bem vendo que sua casa está bem protegida. Acho que foi o que aconteceu comigo, me senti tão bem que dormi como um neném, sem acordar uma única vez!
            Quando liguei a televisão, o pavor me tomou de novo: “Policiais assassinados no meio da noite”... Meu coração disparou, será que poderia ser? Ou será que não? A reportagem continuou e mostrou a foto dos dois policiais. Sim, era ele, o mesmo policial que viera até a minha casa! Ele e o parceiro estavam mortos, assassinados dentro da própria viatura depois de terem passado na minha casa! Por deus, o que será de mim agora?! Levantei-me, fui até a sala e olhei para a bagunça que permanecia do mesmo jeito:
            – O guarda tinha razão, preciso limpar isso aqui... – tirei tudo o que estava jogado no chão, coloquei no lixo a comida estragada e pus os móveis no lugar.
            Debaixo do sofá tinha uma peça de roupa:
            – Nossa! Que cheiro! Preciso lavar a minha blusa!
            Coloquei-a na lavadora e antes que eu pudesse colocar o sabão, tocaram a campainha. Fui atender, pelo olho mágico vi um homem alto, vestido de preto:
            – Pois, não? – entreabri a porta, da mesma forma que fiz com o guarda.
            – Eu estava te procurando...
            – ...! – fechei a porta na cara dele.
            – Não adianta fugir de mim... – ele já estava na minha frente. – Você vem comigo!

            Tentei gritar, mas tudo o que vi foi seu sorriso se abrindo mais que o meu...
...
 

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