MALDIÇÃO N.º02
Coisas
ruins têm acontecido... Moro nesta pequena casa em Londres desde que nasci e há
um mês meus pais se mudaram, me deixando só, sozinho, cuidando de mim mesmo. Já
sou adulto e sei me cuidar muito bem. De fato, o problema é não ter com quem
conversar. E para piorar tudo, um assassino tem rondado a vizinhança entrando
nas casas a noite para cometer os seus crimes...
O primeiro
assassinato aconteceu com um senhor de idade no final da rua. Ele era rabugento
e sempre brigava com as crianças que passavam pela rua. Inclusive eu! Quando
era pequeno, ao chutar a bola na direção errada, que foi parar justamente na
calçada do velho, levei um chute do desgraçado na barriga. Fui para casa
chorando e minha mãe apenas disse: “Perdoe aquele velho, ele não sabe o que faz”.
Senti-me vingado quando soube da morte dele. Ouvi pelas conversas da rua que
ele foi esfaqueado e ficara com o rosto todo desfigurado.
A segunda
morte ocorreu alguns dias depois, com a vizinha fofoqueira da rua.
Aparentemente ela viu quando alguém estranho estava saindo da casa do primeiro
morto e foi sentenciada como a próxima vítima. Ela testemunhou para a polícia
que o sujeito tinha cerca de um metro e oitenta, e usava uma blusa branca que
ficou manchada com o sangue. Por que ela foi dizer aquilo?! Agora ela está
morta e, pelo que ouvi dizer, a língua não foi encontrada...
Apesar
disso, infeliz mesmo fora a terceira vítima: uma criança com cerca de oito anos
que eu mesmo havia visto ainda com vida poucas horas antes da fatídica noite. O
assassino voltou a entrar escondido na casa, entrou no quarto da criança e
novamente usou uma faca para suas insanidades. O menino recebeu facadas no
peito, no pescoço e, o pior de tudo, teve seus olhos arrancados. O cachorro,
enquanto isso, não latiu uma única vez. Depois que os pais encontraram o filho
naquele estado e as viaturas da polícia tomaram novamente conta da rua inteira,
o policial questionou o porquê do cachorro não ter latido. Foram ver e o animal
não saia de sua pequena casinha no canto do miúdo quintal... ele estava morto
também. Não por facadas, mas por ter comido um pedaço de carne envenenado.
A policia
estava completamente estarrecida depois do terceiro assassinato. Os policiais
não paravam de tocar a campainha das casas e perguntando a todos os moradores
sobre qualquer coisa relacionada àquelas pessoas. Além de morarem no mesmo
bairro, não foi encontrado nenhum indício do que poderia conectar os
assassinatos em série. Chegaram até bater na minha porta. Naquele momento eu
não estava e não pude relatar nada que fosse interessante ao caso. Porém, pude
ver quando tocaram a campainha do meu vizinho e ele a abriu, meio receoso do
que poderia dizer, deixando a porta entreaberta. Meu vizinho contou-lhes alguma
coisa sobre a noite referente ao assassinato do menino, que vira alguém
perambulando nas ruas naquele mesmo horário, vestindo uma blusa branca e que o
sujeito batera em uma lata de lixo que fora encontrada do mesmo jeito,
derrubada, com todo o lixo espalhado. Eles levaram a lata inteira para análise.
Talvez um pouco exagerado, eu diria, pois não foi o suficiente para deter a
próxima morte...
Para minha
surpresa... Preciso respirar um pouco agora, isso é meio difícil de dizer. Para
a minha surpresa, o quarto assassinado foi o meu vizinho. Isso estava começando
a me preocupar, se o meu vizinho foi morto porque o assassino sabia que ele
havia dito algo sobre aquela lata de lixo que fora exageradamente analisada, o
que poderia acontecer comigo, então? Passei várias noites em claro depois daquilo.
Assisti pela janela o corpo sendo retirado de dentro de um saco, com o legista
perguntando sobre a mão daquele senhor e o policial respondendo que ninguém a
encontrara. Aquela mesma mão que ficara para fora da porta, com os dedos
segurando aquela que deveria ser sua única proteção... E o mais interessante
estaria por vir! A porta não fora tocada, não havia sinais de arrombamento nela
e em nenhum outro lugar da casa. Tentaram achar alguma digital, nada! Nenhuma
pista sobre o assassino.
Três dias
depois, sem dormir praticamente nada, fiquei tomando café até que o dia
amanhecesse. Se eu estiver acordado, pelo menos eu posso me defender ou chamar
a policia... Alguém bateu na minha porta! Pulei da minha cadeira, fazendo
barulho, minhas mãos tremiam. Tentei me acalmar, respirei fundo, crente que se
fosse o assassino ele não bateria na porta... ou bateria? Bateram novamente na
minha porta e disseram: “É a policia, abra a porta”! Olhei pelo olho mágico e
constatei o uniforme. Abri a porta, deixando o ferrolho passado:
– Boa
noite... – disse o guarda.
– Boa
noite. – respondi com certa timidez e fraqueza de corpo. O guarda me encarou,
me estranhando.
– Estamos
fazendo a ronda noturna, notou alguém estranho passando pela rua?
– Nã...
não... Desculpe, ainda não vi ninguém na rua que não fosse um policial.
Acredito que todos os moradores já sabem do assassino serial...
– Obrigado
pela informação... – ele pensou em se virar, mas continuou na frente da minha
porta. – Posso te perguntar uma coisa?
– Po...
pode... – minha voz saiu fina, quase não saindo.
– Porque
está usando óculos escuros de noite?
– Minhas
olheiras... Faz dias que não durmo com as noticias que não param de chegar...
Meus olhos não param de doer. – abaixei os óculos um pouco para mostrar ao
guarda que meu estado era péssimo.
– OK. A
policia de Londres lhe promete que terá uma boa noite de sono assim que
pegarmos o assassino... – o policial fez uma careta. – Que cheiro é esse?
– Que
vergonha... – olhei para trás e vi uma bagunça horrorosa. – Faz um mês que
estou morando sozinho, é a primeira vez que vivo sem meus pais... Sabe como é?
Sou solteiro, desempregado, sem ninguém para lavar a minha roupa ou limpar a
casa... Estou tentando me virar e...
– Tudo bem
se eu entrar?
– Cl...
Claro! Só não repare na bagunça... – respirei fundo e abri a porta para o
desconhecido.
O policial
acenou para o parceiro que estava no carro e entrou. Eu estava completamente
envergonhado com ele vendo a imundície que a casa estava. Ele vasculhou tudo,
olhou de um lado a outro e saiu.
– Tudo
certo por aqui... Já estou indo. Tente arrumar a casa de vez em quando.
Novamente, obrigado...
– De
nada...
– Cuidado,
se vir alguém, é só ligar...
– Sim...
Assim que
fechei a porta me senti aliviado. Policiais são meio estranhos, imponentes, dão
medo em todo mundo. Acredito que eu não deva ser o único que dormiria bem vendo
que sua casa está bem protegida. Acho que foi o que aconteceu comigo, me senti
tão bem que dormi como um neném, sem acordar uma única vez!
Quando
liguei a televisão, o pavor me tomou de novo: “Policiais assassinados no meio
da noite”... Meu coração disparou, será que poderia ser? Ou será que não? A
reportagem continuou e mostrou a foto dos dois policiais. Sim, era ele, o mesmo
policial que viera até a minha casa! Ele e o parceiro estavam mortos,
assassinados dentro da própria viatura depois de terem passado na minha casa!
Por deus, o que será de mim agora?! Levantei-me, fui até a sala e olhei para a
bagunça que permanecia do mesmo jeito:
– O guarda
tinha razão, preciso limpar isso aqui... – tirei tudo o que estava jogado no
chão, coloquei no lixo a comida estragada e pus os móveis no lugar.
Debaixo do
sofá tinha uma peça de roupa:
– Nossa!
Que cheiro! Preciso lavar a minha blusa!
Coloquei-a
na lavadora e antes que eu pudesse colocar o sabão, tocaram a campainha. Fui
atender, pelo olho mágico vi um homem alto, vestido de preto:
– Pois,
não? – entreabri a porta, da mesma forma que fiz com o guarda.
– Eu estava
te procurando...
– ...! –
fechei a porta na cara dele.
– Não
adianta fugir de mim... – ele já estava na minha frente. – Você vem comigo!
Tentei gritar, mas tudo o que vi foi seu sorriso se abrindo mais que o meu...
Tentei gritar, mas tudo o que vi foi seu sorriso se abrindo mais que o meu...
...


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