MALDIÇÃO N.º 01
– Não! Eu
não quero ver! Faça isso parar! Eu não quero ver! Pelo amor de Deus! Faça isso
parar! – aquele pobre homem não parava de chorar, olhando constantemente para o
vazio.
– Você
verá! E vai me dizer tudo o que você enxergar! – o outro que o acompanhava pelos
becos da cidade, apertava-lhe o braço com força, machucando-o.
– Por deus!
O que foi que eu fiz!
...
“Olá... Meu
nome e Jonnatan, sou nova-iorquino, tenho 23 anos e sempre vivi na grande
cidade dos sonhos. Eu vivo como mendigo por causa das drogas, é verdade, mas,
por favor, ouçam o que eu vou dizer: não falem com estranhos, jamais!
Principalmente se ele tiver uma estrela vermelha em algum lugar do corpo ou na
roupa. Na época eu não sabia que isso poderia ser perigoso...”
“ELE me
parecia um cara normal, se vestia de preto, tinha um sorriso amigável e me deu
algumas drogas... Ah! Como me arrependo disso! Meu vício me levou a essa
loucura... Eu morava numa casa abandonada com outros drogados, já deveria fazer
um ano que eu tinha fugido de casa e deixado minha família. Ele, como outros
que aparecem por lá, tentam oferecer, ou uma saída para nós, ou tentam nos
deixar mais drogados ainda. Estranhamente, ele me ofereceu os dois. Como de
costume, eu peguei as drogas e fumei tudo, sem me importar com o que ele me
pediria em troca.”
“ME dei a
possibilidade de dúvida sem saber o que estava fazendo e, durante mais ou menos
um mês, ele me deu tudo o que eu precisava, diminuindo aos poucos para que eu
não tivesse uma overdose. Minhas mãos tremiam muito enquanto eu esperava por
ele. A casa foi ficando vazia e eu era o último que restava. Estava sozinho,
esperando pela última dose, por aquela miserável dose! Ele estava ali, na
porta...”
“OBRIGOU-me
a me levantar e fiquei de pé. Lhe exigi que me desse logo a droga e me entregou
um papelzinho embrulhado. Quando li o que estava escrito comecei a gritar com
ele: ‘Como assim acabou? Eu quero mais!’ Ele sorriu e passou a mão na minha
cabeça. Bati nela com raiva. ‘Eu tenho mais, mas você tem que vir comigo, é só
algumas quadras daqui...’ Ele me virou as costas e saiu. Minhas mãos voltaram a
tremer, estava passando mal por causa do vício e saí atrás dele. Eu não deveria
ter feito isso...”
“A correr,
eu estava, quase perdendo ele de vista. Minhas pernas, que estavam dormentes
por causa da posição constante em que me mantinha, doíam, no entanto, aquela
emoção que me tomava para obter mais drogas me fazia correr como eu nunca tinha
feito antes. Passamos por algumas avenidas... No meio das ruas eu vi a minha
irmã, ela me olhou com pena e ficou me encarando. Retribuí-lhe olhando-a com
ódio. Ela fez menção de dizer alguma coisa e hesitou. Eu já sabia a resposta, voltei
o olhar para a multidão e encontrei novamente aquele homem de preto com a
cicatriz no rosto. Voltei a correr, deixando ela para trás. Querida irmã, se
soubesse realmente como eu estou agora, será que você poderia me perdoar de
novo?”
“ESCREVER
isso não é fácil... Vou tentar me expressar da melhor forma possível. Eu entrei
num conjunto habitacional marcado para ser demolido no dia seguinte. O prédio
era velho, a infiltração, umidade e mofo tomaram conta do lugar. Senti um
arrepio quando pus o primeiro pé ali, sentia como se milhares de pessoas
gritassem para eu ir embora. Eu sentia presenças conhecidas me implorando para
que eu desse meia-volta. Minhas mãos tremeram, elas não paravam de tremer. Eu
estava sem ar, sentindo-me agoniado para obter mais drogas. Suava frio e
entrei. O caminho era longo e escuro. Do lado de fora já começava a anoitecer e
o vento frio soprava, gelando meus pés sujos e descalços. No fim do corredor,
uma luz meio azulada brilhava. Entrei naquela sala, ali estava ele e pude
sentir o maravilhoso aroma das drogas que me entorpeciam. Ele estava de costas
e se virou, estava usando uma máscara de gás. Não havia percebido antes, minha
visão estava ficando turva e, de repente, perdi os sentidos. Eu estava ali,
preso na armadilha dele, sem conseguir me mexer, completamente acordado...”
“ISSO, eu
estava ali, paralisado, de olhos abertos sem conseguir piscar. Ele me carregou
até uma cama de hospital que estava ali e tirou a minha roupa, me deu um banho,
me secou e me pôs em outra cama diferente. Deixou-me de bruços e encaixou a
minha cabeça em um suporte. Eu queria chorar, eu não podia ver o que ele estava
fazendo. Eu o ouvi raspando algo e vi meus cabelos caindo. Queria gritar,
aquilo não podia estar acontecendo. Ele ligou uma furadeira, ou algo parecido,
e abriu meu crânio, tive certeza quando ele colocou a parte de cima da minha
cabeça sobre uma mesinha. Eu não podia crer, o que ele queria comigo?! O que
ele queria com meu cérebro?!”
“SOCORRO,
eu queria gritar e apaguei, por deus, aquilo foi um alívio para mim.
Infelizmente, a alegria durou pouco. Eu não estava dormindo, eu estava cego!
Mãe, pai, irmã... Me perdoem pelos pecados que cometi, isso me levou as mãos de
um maníaco! Como pude me deixar levar pela merda dessas drogas! Eu só queria
fugir de casa, fugir do divorcio dos meus pais, das brigas constantes que eu
tinha com a minha família. Não era para terminar assim! Devo ter passado horas
naquela cama. Quando a dor estava começando a voltar, ele colocava uma máscara
no meu rosto me pondo de novo naquele estado de catalepsia induzido. Deus, por
que isso pode acontecer?!”
“ME deixou
lá por mais algum tempo. Acredito que ele enfaixou a minha cabeça e o meu
rosto. Colocou algo pesado sobre ela e me tirou daquele lugar. Não sabia
exatamente o que estava acontecendo, o que dava para saber era que a demolição
do prédio começara pouco depois de termos partido, foi o que pude ouvir. O
carro rodou por horas e paramos no que percebi depois ser um grande hotel.
Passei alguns dias ali, me recuperando. Creio ter estado com uma enfermeira durante
esse tempo, a presença daquele homem não estava por perto. Um dia, acordei e me
levantei. Tateei as mãos pela parede até encontrar uma cortina que abri. O sol
esquentou a minha pele e senti as ataduras. Encontrei o ponto de amarração e
comecei a tirá-las. Terminando com a gaze, ainda restava um capacete de chumbo.
Quando tirei pude ver a luz... Eu não deveria ter feito isso... Eu não posso
mais fazer isso!”
“AJUDE-me a
entender... Eu deveria estar vendo uma maravilhosa paisagem de Nova Iorque e
acabei vendo o inferno! Eu vi pessoas sendo atropeladas, prédios explodindo,
confusões, brigas assassinatos e, em seguida, tudo estava normal... A
enfermeira entrou e pulei em cima dela, enforcando-a sem que ela pudesse falar
alguma coisa... Pisquei, a enfermeira entrou e eu joguei o abajur na sua
cabeça, fazendo-a sangrar até a morte... Pisquei de novo, a enfermeira tentou
entrar e eu bati a porta na cara dela. Ela caiu com o nariz quebrado no chão e
não parava de sangrar... Pisquei de novo... Já estava sem fôlego. Olhei ao
redor e o ambiente estava normal, nada daquilo havia acontecido. Aliás, eu não
ia matar a enfermeira, eu só havia pensado naquilo! Como isso pode acontecer?
Me dei conta de que foi a operação que aquele homem fez em mim...
“POR aquele
momento, fiquei olhando a cidade onde eu nasci. Tudo em que eu pensava eu
assistia, completamente atônito, tudo o que poderia acontecer era real para mim
agora. Olhei para o céu e tentei escapar daquelas atrocidades... Senti a
presença daquele homem voltando e, no meio das nuvens, uma sombra negra de uma
criatura alada sobrevoou a cidade. Aquele monstro rugiu e a cidade inteira
tremeu e se despedaçou, como se uma bomba atômica tivesse sido explodida no
centro da maior cidade do mundo... Eu tremi, ele estava atrás de mim.”
“‘FAVOR...
Por favor...’ Minha voz falhava e eu quase não consegui dizer o que queria. ‘Me
diga, o que você fez comigo?’ Ele sorriu para mim, como qualquer pessoa alegre
e contente, e começou a me dizer coisas que eu não entedia direito. Ele me
falava sobre física avançada e sobre neurobiologia, e em como essas duas
ciências poderiam ser úteis se alguém conseguisse uni-las. Eu era a cobaia, e a
experiência foi um sucesso... Comecei a gritar com ele, tentei socá-lo e ele
fugia de mim. Corri atrás dele pelo quarto até me cansar. Senti uma pontada na
cabeça e caí no chão. Eu não caí por causa disso, eu sentia o chão inteiro se
desmanchar sobre meus pés, o prédio inteiro veio abaixo, litros e litros de
sangue caiam sobre mim... No momento seguinte eu estava apenas no chão. Sem
conseguir me levantar, vomitando sem parar. Ele me acudiu e pôs o capacete de
chumbo na minha cabeça, as visões cessaram um pouco. Na minha cabeça eu vi um
gato vermelho passando por entre as minhas pernas e pulei dos braços dele. Ele
me perguntou o que era e eu não soube dizer, eu só me lembrava de...
Vermelho... O que poderia ser aquilo?”
“Fui levado
dali para um aeroporto, tentei escapar várias vezes, mas sempre que eu
precisava tirar o capacete para ver aonde eu ia, o mundo inteiro desabava na
minha frente, homens matando homens a sangue frio, mulheres sendo estupradas
com violência, cachorros comendo crianças, ratos e baratas comendo pessoas
vivas... Eu não conseguia ir longe dele, perto dele as visões diminuíam.
Viajamos durante horas para algum lugar desconhecido. Com o capacete eu estava
completamente cego da realidade e sem ele, menos ainda. O avião parou em uma
região praiana, com nevoeiro forte, tempo completamente nublado. Ele me deixou
em uma casinha e fechou a porta. Engoli a seco e tentei ver para onde ele ia.
Por um instante vi um píer comprido de madeira com uma espécie de bar no final
com um luminoso brilhante: Porto dos Mortos. No momento seguinte, tudo ficou
escuro, o lugar todos estava tomado por sombras e nas sombras, milhares de
bocas abertas e sorridentes, com dentes brancos e línguas compridas que se
agitavam perturbadoramente. Fechei a porta com força e pedi a Deus, se você leu
isso, leia de novo, por favor...
...


Nenhum comentário:
Postar um comentário