17 de janeiro de 2013

Maldição N.º01


MALDIÇÃO N.º 01


 

            – Não! Eu não quero ver! Faça isso parar! Eu não quero ver! Pelo amor de Deus! Faça isso parar! – aquele pobre homem não parava de chorar, olhando constantemente para o vazio.

            – Você verá! E vai me dizer tudo o que você enxergar! – o outro que o acompanhava pelos becos da cidade, apertava-lhe o braço com força, machucando-o.

            – Por deus! O que foi que eu fiz!

...

            “Olá... Meu nome e Jonnatan, sou nova-iorquino, tenho 23 anos e sempre vivi na grande cidade dos sonhos. Eu vivo como mendigo por causa das drogas, é verdade, mas, por favor, ouçam o que eu vou dizer: não falem com estranhos, jamais! Principalmente se ele tiver uma estrela vermelha em algum lugar do corpo ou na roupa. Na época eu não sabia que isso poderia ser perigoso...”

            “ELE me parecia um cara normal, se vestia de preto, tinha um sorriso amigável e me deu algumas drogas... Ah! Como me arrependo disso! Meu vício me levou a essa loucura... Eu morava numa casa abandonada com outros drogados, já deveria fazer um ano que eu tinha fugido de casa e deixado minha família. Ele, como outros que aparecem por lá, tentam oferecer, ou uma saída para nós, ou tentam nos deixar mais drogados ainda. Estranhamente, ele me ofereceu os dois. Como de costume, eu peguei as drogas e fumei tudo, sem me importar com o que ele me pediria em troca.”

            “ME dei a possibilidade de dúvida sem saber o que estava fazendo e, durante mais ou menos um mês, ele me deu tudo o que eu precisava, diminuindo aos poucos para que eu não tivesse uma overdose. Minhas mãos tremiam muito enquanto eu esperava por ele. A casa foi ficando vazia e eu era o último que restava. Estava sozinho, esperando pela última dose, por aquela miserável dose! Ele estava ali, na porta...”

            “OBRIGOU-me a me levantar e fiquei de pé. Lhe exigi que me desse logo a droga e me entregou um papelzinho embrulhado. Quando li o que estava escrito comecei a gritar com ele: ‘Como assim acabou? Eu quero mais!’ Ele sorriu e passou a mão na minha cabeça. Bati nela com raiva. ‘Eu tenho mais, mas você tem que vir comigo, é só algumas quadras daqui...’ Ele me virou as costas e saiu. Minhas mãos voltaram a tremer, estava passando mal por causa do vício e saí atrás dele. Eu não deveria ter feito isso...”

            “A correr, eu estava, quase perdendo ele de vista. Minhas pernas, que estavam dormentes por causa da posição constante em que me mantinha, doíam, no entanto, aquela emoção que me tomava para obter mais drogas me fazia correr como eu nunca tinha feito antes. Passamos por algumas avenidas... No meio das ruas eu vi a minha irmã, ela me olhou com pena e ficou me encarando. Retribuí-lhe olhando-a com ódio. Ela fez menção de dizer alguma coisa e hesitou. Eu já sabia a resposta, voltei o olhar para a multidão e encontrei novamente aquele homem de preto com a cicatriz no rosto. Voltei a correr, deixando ela para trás. Querida irmã, se soubesse realmente como eu estou agora, será que você poderia me perdoar de novo?”

            “ESCREVER isso não é fácil... Vou tentar me expressar da melhor forma possível. Eu entrei num conjunto habitacional marcado para ser demolido no dia seguinte. O prédio era velho, a infiltração, umidade e mofo tomaram conta do lugar. Senti um arrepio quando pus o primeiro pé ali, sentia como se milhares de pessoas gritassem para eu ir embora. Eu sentia presenças conhecidas me implorando para que eu desse meia-volta. Minhas mãos tremeram, elas não paravam de tremer. Eu estava sem ar, sentindo-me agoniado para obter mais drogas. Suava frio e entrei. O caminho era longo e escuro. Do lado de fora já começava a anoitecer e o vento frio soprava, gelando meus pés sujos e descalços. No fim do corredor, uma luz meio azulada brilhava. Entrei naquela sala, ali estava ele e pude sentir o maravilhoso aroma das drogas que me entorpeciam. Ele estava de costas e se virou, estava usando uma máscara de gás. Não havia percebido antes, minha visão estava ficando turva e, de repente, perdi os sentidos. Eu estava ali, preso na armadilha dele, sem conseguir me mexer, completamente acordado...”

            “ISSO, eu estava ali, paralisado, de olhos abertos sem conseguir piscar. Ele me carregou até uma cama de hospital que estava ali e tirou a minha roupa, me deu um banho, me secou e me pôs em outra cama diferente. Deixou-me de bruços e encaixou a minha cabeça em um suporte. Eu queria chorar, eu não podia ver o que ele estava fazendo. Eu o ouvi raspando algo e vi meus cabelos caindo. Queria gritar, aquilo não podia estar acontecendo. Ele ligou uma furadeira, ou algo parecido, e abriu meu crânio, tive certeza quando ele colocou a parte de cima da minha cabeça sobre uma mesinha. Eu não podia crer, o que ele queria comigo?! O que ele queria com meu cérebro?!”

            “SOCORRO, eu queria gritar e apaguei, por deus, aquilo foi um alívio para mim. Infelizmente, a alegria durou pouco. Eu não estava dormindo, eu estava cego! Mãe, pai, irmã... Me perdoem pelos pecados que cometi, isso me levou as mãos de um maníaco! Como pude me deixar levar pela merda dessas drogas! Eu só queria fugir de casa, fugir do divorcio dos meus pais, das brigas constantes que eu tinha com a minha família. Não era para terminar assim! Devo ter passado horas naquela cama. Quando a dor estava começando a voltar, ele colocava uma máscara no meu rosto me pondo de novo naquele estado de catalepsia induzido. Deus, por que isso pode acontecer?!”

            “ME deixou lá por mais algum tempo. Acredito que ele enfaixou a minha cabeça e o meu rosto. Colocou algo pesado sobre ela e me tirou daquele lugar. Não sabia exatamente o que estava acontecendo, o que dava para saber era que a demolição do prédio começara pouco depois de termos partido, foi o que pude ouvir. O carro rodou por horas e paramos no que percebi depois ser um grande hotel. Passei alguns dias ali, me recuperando. Creio ter estado com uma enfermeira durante esse tempo, a presença daquele homem não estava por perto. Um dia, acordei e me levantei. Tateei as mãos pela parede até encontrar uma cortina que abri. O sol esquentou a minha pele e senti as ataduras. Encontrei o ponto de amarração e comecei a tirá-las. Terminando com a gaze, ainda restava um capacete de chumbo. Quando tirei pude ver a luz... Eu não deveria ter feito isso... Eu não posso mais fazer isso!”

            “AJUDE-me a entender... Eu deveria estar vendo uma maravilhosa paisagem de Nova Iorque e acabei vendo o inferno! Eu vi pessoas sendo atropeladas, prédios explodindo, confusões, brigas assassinatos e, em seguida, tudo estava normal... A enfermeira entrou e pulei em cima dela, enforcando-a sem que ela pudesse falar alguma coisa... Pisquei, a enfermeira entrou e eu joguei o abajur na sua cabeça, fazendo-a sangrar até a morte... Pisquei de novo, a enfermeira tentou entrar e eu bati a porta na cara dela. Ela caiu com o nariz quebrado no chão e não parava de sangrar... Pisquei de novo... Já estava sem fôlego. Olhei ao redor e o ambiente estava normal, nada daquilo havia acontecido. Aliás, eu não ia matar a enfermeira, eu só havia pensado naquilo! Como isso pode acontecer? Me dei conta de que foi a operação que aquele homem fez em mim...

            “POR aquele momento, fiquei olhando a cidade onde eu nasci. Tudo em que eu pensava eu assistia, completamente atônito, tudo o que poderia acontecer era real para mim agora. Olhei para o céu e tentei escapar daquelas atrocidades... Senti a presença daquele homem voltando e, no meio das nuvens, uma sombra negra de uma criatura alada sobrevoou a cidade. Aquele monstro rugiu e a cidade inteira tremeu e se despedaçou, como se uma bomba atômica tivesse sido explodida no centro da maior cidade do mundo... Eu tremi, ele estava atrás de mim.”

            “‘FAVOR... Por favor...’ Minha voz falhava e eu quase não consegui dizer o que queria. ‘Me diga, o que você fez comigo?’ Ele sorriu para mim, como qualquer pessoa alegre e contente, e começou a me dizer coisas que eu não entedia direito. Ele me falava sobre física avançada e sobre neurobiologia, e em como essas duas ciências poderiam ser úteis se alguém conseguisse uni-las. Eu era a cobaia, e a experiência foi um sucesso... Comecei a gritar com ele, tentei socá-lo e ele fugia de mim. Corri atrás dele pelo quarto até me cansar. Senti uma pontada na cabeça e caí no chão. Eu não caí por causa disso, eu sentia o chão inteiro se desmanchar sobre meus pés, o prédio inteiro veio abaixo, litros e litros de sangue caiam sobre mim... No momento seguinte eu estava apenas no chão. Sem conseguir me levantar, vomitando sem parar. Ele me acudiu e pôs o capacete de chumbo na minha cabeça, as visões cessaram um pouco. Na minha cabeça eu vi um gato vermelho passando por entre as minhas pernas e pulei dos braços dele. Ele me perguntou o que era e eu não soube dizer, eu só me lembrava de... Vermelho... O que poderia ser aquilo?”

            “Fui levado dali para um aeroporto, tentei escapar várias vezes, mas sempre que eu precisava tirar o capacete para ver aonde eu ia, o mundo inteiro desabava na minha frente, homens matando homens a sangue frio, mulheres sendo estupradas com violência, cachorros comendo crianças, ratos e baratas comendo pessoas vivas... Eu não conseguia ir longe dele, perto dele as visões diminuíam. Viajamos durante horas para algum lugar desconhecido. Com o capacete eu estava completamente cego da realidade e sem ele, menos ainda. O avião parou em uma região praiana, com nevoeiro forte, tempo completamente nublado. Ele me deixou em uma casinha e fechou a porta. Engoli a seco e tentei ver para onde ele ia. Por um instante vi um píer comprido de madeira com uma espécie de bar no final com um luminoso brilhante: Porto dos Mortos. No momento seguinte, tudo ficou escuro, o lugar todos estava tomado por sombras e nas sombras, milhares de bocas abertas e sorridentes, com dentes brancos e línguas compridas que se agitavam perturbadoramente. Fechei a porta com força e pedi a Deus, se você leu isso, leia de novo, por favor...

...

 

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